Mutirão de reparos une vizinhos em bairro da zona norte de Manaus

Ilustração de mutirão de reparos em bairro de Manaus

Na Rua Projetada 12, no bairro Jorge Teixeira, a chuva de março deixou um rastro que ainda dava para ver em maio: telhado com goteira, calçada esburacada, muro da quadra comunitária rachado de um lado ao outro. O pedido de ajuda à prefeitura foi protocolado em abril. A resposta, dizem os moradores, não chegou.

Foi então que Geraldo Pinto, 63 anos, aposentado da construção civil, colocou um banco na calçada, chamou os vizinhos e perguntou: "Se a gente fizer sozinho, quem topa?" Na primeira reunião, sete pessoas. Na segunda, vinte e três. Na semana do mutirão, mais de quarenta.

Uma semana, três frentes de trabalho

O plano foi dividido em frentes: telhados (liderada pelo Seu Geraldo), calçadas (com a pedreira do Zé, que emprestou brita e cimento) e muro da quadra (com ajuda de um professor de educação física que organizou os jovens). Cada família contribuiu com o que podia — ferramenta, água, comida para quem trabalhava no sol.

A Dona Raimunda, 71 anos, cuja casa era a mais afetada pelas goteiras, chorou no meio da obra. "Não é pelo telhado", explicou depois. "É porque ninguém faz nada sozinho. Eu achei que ia morrer com aquele barulho de goteira na panelha."

Os perrengues do caminho

Nem tudo foi simples. No terceiro dia, faltou telha — o grupo teve que improvisar com doação de um depósito de material do bairro vizinho. Um voluntário torceu o tornozelo e passou o resto da semana coordenando pelo WhatsApp, sentado na cadeira de plástico na sombra da mangueira.

Houve também desconfiança no começo. "A gente está acostumado com promessa de político que some depois da eleição", conta Fernanda Lima, 38, mãe de três. "Quando o Seu Geraldo falou em mutirão, muita gente achou que era conversa." O que convenceu foi o critério dele: "Não prometer o que não dá para cumprir. A gente faz o que dá, com o que tem."

Depois do mutirão

Quando a semana terminou, três telhados estavam refeitos, quarenta metros de calçada consertados e o muro da quadra pintado de azul — cor escolhida em votação no grupo do bairro. A prefeitura, informou a assessoria de imprensa, "está analisando o pedido de apoio para drenagem" protocolado pelos moradores.

O mais duradouro, porém, não é o cimento. É o grupo que ficou. Toda quarta, os voluntários se reúnem para manutenção preventiva e para ajudar famílias que ainda estão na fila de reparos. Criaram um fundo informal — cada um coloca cinco ou dez reais quando pode — para comprar material.

"Mutirão não é só consertar parede", resume o Seu Geraldo, limpando o pó de cimento das mãos. "É consertar a ideia de que vizinho é gente que a gente pode chamar quando a chuva entra pela fresta."