Feira livre revitalizada atrai famílias de volta ao centro de Campinas
Na manhã do último sábado, a Praça Carlos Gomes parecia outra. Barracas alinhadas, fila na banca de pão de queijo, crianças correndo entre os boxes de hortaliças. Há dois anos, o cenário era o oposto: obras de revitalização haviam empurrado os feirantes para uma rua lateral estreita, o fluxo de clientes despencou e vários quase fecharam as portas.
A virada não veio de um decreto nem de um evento de inauguração pomposo. Veio de reuniões — muitas reuniões — entre a associação dos feirantes, a prefeitura e moradores do bairro Cambuí. "A gente cansou de reclamar no grupo do WhatsApp e resolveu sentar para conversar de verdade", resume Maria Conceição Alves, 58 anos, que vende queijos artesanais na feira há 18 anos.
Obras que dividiram
O projeto de revitalização da praça começou em 2023 com boas intenções: novo piso, iluminação, acessibilidade. Mas o cronograma atrasou, a área de montagem das barracas encolheu e ninguém consultou os feirantes sobre o novo layout. Dona Conceição lembra que, no pior momento, sua banca ficou atrás de um container de obras. "Eu gritava preço para quem passava do outro lado. Vendia metade do que vendia antes."
Outros feirantes simplesmente não voltaram. Segundo a associação, o número de barracas caiu de 47 para 28 em menos de um ano. A praça, antes ruidosa e cheia, ganhou um silêncio que os moradores descrevem como "desconfortável".
A mesa de negociação
O ponto de inflexão foi uma audiência pública em março de 2025, quando a associação levou fotos da feira em seu auge e planilhas de queda de renda. A prefeitura concordou em revisar o mapa de ocupação e ampliar a área coberta para 38 barracas, com rodízio para quem estava na lista de espera.
Também foi criado um comitê mensal com representantes dos feirantes, do comércio local e da secretaria de obras. Não é perfeito — ainda há reclamação sobre estacionamento e coleta de lixo aos sábados — mas Dona Conceição diz que pela primeira vez sente que "alguém escuta antes de decidir".
O sábado que a praça voltou a sorrir
No sábado retrasado, a feira registrou o maior movimento desde 2022, segundo estimativa da associação. Famílias que haviam migrado para supermercados voltaram a comprar fruta direto do produtor. O Seu Osvaldo, que vende mudas de tempero, esgotou o estoque às 10h30 — algo que não acontecia há anos.
"Feira não é só comércio", explica Juliana Ferreira, moradora do Cambuí e mãe de dois. "É onde você encontra a vizinha, pergunta se o filho dela passou no vestibular, leva a criança para escolher a banana. Quando a feira some, o bairro perde um pedaço da memória."
A prefeitura informou que novas melhorias estão previstas para o segundo semestre, incluindo cobertura parcial e banheiros públicos. Os feirantes pedem apenas uma coisa: que continuem sendo consultados. "A gente aguenta obra, aguenta chuva, aguenta sol", diz Dona Conceição. "O que a gente não aguenta é ser esquecido."